Antes de entrar no assunto principal desta nova postagem, preciso fazer um complemento ao texto do sexto post deste blog, intitulado “Diálogos musicais”, no qual falei das gravações da canção “Rosto”, de minha autoria. Por esquecimento, deixei de incluir no texto o link para a versão acústica da canção, que o grupo Trinca Acústica também gravou, em 2006. A gravação tem Eduardo Emílio nos vocais, Hugo Sinisgalli no violão e Flavio Felix no contrabaixo. Aí vai o link:

https://soundcloud.com/user-824265939/rosto-1

Feito o reparo, passo a falar agora de um projeto autoral, ao qual me dediquei a partir de 2004. Quatro anos antes, em 2000, eu havia lançado um livro infantil chamado Quermesse Maluca, pela Formato Editorial, então uma editora mineira com sede em Belo Horizonte. O livro contém 12 poemas que enfocam vários elementos das festas juninas, entre os quais se destacam: a pipoca, o pinhão, a fogueira, o balão, a quadrilha, o correio elegante, o pau-de-sebo, os fogos de artifício, os santos relacionados às datas comemorativas, etc.

Algum tempo depois do lançamento do livro, tive a ideia de musicar os poemas e comecei a conceber harmonias e melodias para cada um deles. Com a ajuda do maestro, produtor e arranjador Paulo Madio, finalizei algumas composições em parceria, e passamos, em seguida, a cuidar das gravações das canções. O trabalho foi todo dirigido, produzido e arranjado pelo próprio Paulinho e também por Alexandre Souza, técnico de gravação e um dos donos do estúdio The Brainless Brothers, onde as canções foram gravadas, mixadas e masterizadas.

Na execução desse projeto, pude contar com a participação de diversos amigos e parentes músicos, que deram “canjas” em várias canções. Foi uma experiência muito gratificante, pois me permitiu interagir e criar em conjunto com quase toda a comunidade musical da qual eu faço parte. O CD foi lançado em 2005, num evento em um bar de São Paulo que teve apresentações ao vivo e contou com a presença de muitas pessoas.

A canção “Convite”, que abre o CD, é de minha autoria, mas recebeu um arranjo vibrante do Paulinho. Ela tem um coro composto pelo próprio Paulinho, por Flavio Felix (meu irmão), por Bruno Prada (de quem falarei oportunamente) e por mim. Confiram como ficou a gravação e venham para a festa:

https://soundcloud.com/user-824265939/convite

A segunda canção do CD, “Pipoca moderninha”, composição minha em parceria com o Paulinho, tem a participação vocal de Júlia Félix, que, apesar do sobrenome, não é minha parente, muito embora faça parte da mesma família musical. A letra da canção personifica de forma bem-humorada a figura da pipoca, tão presente nas festas juninas. O refrão, interpretado por Júlia, faz uma homenagem ao conhecido sucesso da Jovem Guarda, “Vem quente que eu estou fervendo”, de Carlos Imperial e Eduardo Araújo, citando o verso principal da canção, que é cantado, porém, com outra melodia.

https://soundcloud.com/user-824265939/pipoca-moderninha

A terceira canção do CD, “Pinhão esquentado”, também se vale do humor para personificar outro elemento característico das quermesses, sobretudo no sul e no sudeste do país: o pinhão. A canção é também uma parceria minha com Paulinho Madio. Eu a canto sozinho, com acompanhamento instrumental do Paulinho, na guitarra e no baixo, e do Alê Souza, nos teclados e na programação de bateria.

https://soundcloud.com/user-824265939/pinhao-esquentado

Nas próximas postagens, apresentarei outras canções do CD.

Divirtam-se!

Abraços,

HF.

Se na escola eu sempre fui um bom aluno, já em termos de formação musical não posso dizer o mesmo. Na verdade, minha educação musical formal é bem precária e se deu de forma irregular, descontinuada. Comecei a me interessar por aprender música somente por volta dos 14 anos, inspirado por alguns amigos de São Vicente que tocavam violão já havia muito tempo, desde a mais tenra infância. Masé, Roberto, Nana, Paulinho, Cláudio: foram eles que me ensinaram os primeiros acordes no violão, em quantidade suficiente para que eu, de imediato, já me arriscasse a compor as primeiras canções.

A bem da verdade, o que sempre me atraiu no aprendizado musical foi a possibilidade de compor. Por isso, nunca me aprofundei muito no estudo e na prática de um determinado instrumento, dando-me por satisfeito quando, com base nos conhecimentos harmônicos recém-adquiridos, conseguia fazer composições, simples no início e um pouco mais elaboradas depois. Estudei um pouco de violão, um pouco de piano e outro pouco de teoria musical em escolas de música. Cantei no Coralusp e lá também tive aulas de técnica vocal. Gaita eu só aprendi por meio de um método prático e rápido, que me deu recursos técnicos rudimentares, mas a possibilidade de inserir um timbre a mais nas bandas de rock em que toquei.

Com o parco conhecimento musical adquirido e o interesse por escrever letras, compus canções sozinho e também em parcerias, um exercício, aliás, que sempre considerei interessante e enriquecedor. Apresento a seguir algumas canções que ilustram parte do que expus até agora.

Na gravação do CD da banda Pé com Pano, me arrisquei, por exemplo, a tocar piano na canção intitulada “Emoção”, que eu havia composto integralmente nesse instrumento. Trata-se de uma canção que eu gostei muito de escrever e tocar, apesar de não ser um pianista. A letra expõe meus dilemas de consciência entre razão e emoção na hora de criar uma canção. Nessa gravação, me agrada muito a cozinha feita pelo contrabaixo de Marcos Puntel e a bateria de Edinho Lopes, sobretudo na hora em que a canção acelera. Execução valente e tabelinha perfeita executada por esses dois craques do rock independente. Sintam o pique!

Quanto às parcerias, nesse mesmo CD, pude criar solos de gaita em duas canções feitas junto com outros compositores: “Ônibus transcontinental”, minha e de Paulo Sá, e “Black Blue”, composta por mim, Sérgio Brisola e Paulo Sá. Ouçam o resultado dessas criações.

Pelo fato de tocar gaita em covers e composições próprias, também cheguei a receber convites para participações especiais em canções de amigos. É o caso de “Todo o tempo”, de autoria de Gabriel Alonso e Hugo Sinisgalli, gravada pela banda Kane, na qual tive a intenção (não sei se bem realizada) de remeter o solo de gaita para o movimento de um trem. Confiram!

Espero, mais uma vez, que vocês possam curtir e se divertir!

Abraços,

HF.

Uma de minhas composições preferidas chama-se “Rosto”. É a segunda faixa do CD Pé com Pano. Compus essa canção quando tinha 20 anos. Os dois primeiros acordes da harmonia foram inspirados na canção “I’m looking through you”, dos Beatles. A partir deles, elaborei uma sequência em ritmo de country e escrevi uma letra de cunho adolescente, pensando nas dificuldades de um jovem em encontrar sua própria identidade.

Durante muitos anos, a canção existiu sem refrão, e era assim que eu a tocava no violão para os amigos. Quando fomos gravar o CD da banda Pé com Pano, incluímos a canção no repertório, mas então eu percebi que ainda faltava algo para ela se completar. Esse algo era o refrão, que eu compus e incluí na canção, durante as gravações do CD.

O arranjo do Pé com Pano manteve o ritmo original da composição, com a inclusão de solos de gaita e guitarra, e um violão elétrico ao longo de toda a execução. O clima geral do arranjo é alegre, embora o conteúdo da letra remeta a uma situação mais séria. Confiram a seguir.

Curiosamente, essa canção também foi gravada pela banda Kane, integrando o primeiro e único CD do grupo, lançado em 2000, mais ou menos na mesma época do CD do Pé com Pano, que também foi o único da banda. O grupo Kane era formado por Eduardo Emílio (vocais), Flávio Félix (contrabaixo), Hugo Sinisgalli (guitarra), Bruno Knauft (teclados) e Marcelo Golfieri (bateria).

O arranjo da banda Kane para “Rosto” tem um clima mais sério e apresenta algumas modificações na harmonia da canção. Essa gravação mereceu, inclusive, a produção de um videoclipe, que chegou a ser exibido na MTV. Observem no clipe, por curiosidade, que a banda se chamava inicialmente Cidadão Kane e não contava ainda com a participação de Bruno Knauft nos teclados. No entanto, para evitar confusão com o nome de outra banda, a Cidadão Quem, do Rio Grande do Sul, passou a se chamar somente Kane. Confiram a versão da banda Kane para “Rosto”.

O videoclipe, roteirizado e dirigido pelo vocalista da banda, Eduardo Emílio, tem uma abordagem diferente daquela que me motivou a escrever a letra da canção. Enquanto eu pensava nos conflitos de um adolescente, Edu elaborou um roteiro centrado numa dona de casa que está cansada de seu casamento e toma uma decisão drástica para modificar sua vida. É curioso observar esse aspecto na concepção do clipe, já que o autor do roteiro, na ocasião, era um jovem recém-saído da adolescência. Notem a cara de menino do Edu no vídeo!

Esses diferentes arranjos e abordagens da canção mostram como são diversificadas as possibilidades de criação em torno de um mesmo mote e como é interessante estabelecer isso a que podemos chamar de um verdadeiro diálogo musical.

Divirtam-se!

Aproveito para desejar a todos um feliz Natal e um ótimo 2019. Até o ano que vem!

Abraços,

HF.

Uma situação que se repete com frequência dentro de uma banda é a possibilidade de cada um de seus componentes tocar em outros grupos, sem que, por causa disso, tenha que se desligar da formação original. Isso também aconteceu com o Gato na Tuba. Em momentos diferentes, podem ser destacadas algumas experiências interessantes vividas pelos membros do grupo, tanto durante o funcionamento pleno da banda como também em períodos transitórios de inatividade.

Betinho Almeida, por exemplo, integrou diversas bandas, entre elas, uma de country music, tocando por anos em vários bares da cidade e do estado de São Paulo. Pastel também participou de outras formações, tocando bateria em bandas de amigos. Hugo Sinisgalli e Flávio Félix, por sua vez, investiram num trabalho próprio, formando, em 1985, a banda Volúpia, com Gabriel “Guga” Alonso nos vocais, José Roberto Paulo no baixo e Haroldo Gutierrez na bateria. Nessa formação, Tubarão (Flávio) tocava teclados. A banda durou apenas um ano, mas, ao longo desse período, fez muitas apresentações, entre elas, a abertura de um show de Guilherme Arantes no ginásio do Corinthians. Além disso, o grupo chegou a gravar seis composições próprias, das quais eu apresento “Garotas do centro”, de autoria de Gabriel Alonso e Hugo Sinisgalli

Flávio e Hugo viriam depois a formar também as bandas Kane e Trinca Acústica, a respeito das quais eu falarei na próxima postagem. Aliás, aproveito para agradecer ao Flávio, que me forneceu a maior parte das informações contidas neste texto. Segundo ele, entre 1998 e 2002, a banda Gato na Tuba teve outra formação da qual eu não me lembrava, com ele no baixo, Hugo na guitarra, Gabriel Alonso nos vocais e Marcelo Golfieri na bateria.

Nessa época, e mesmo já alguns anos antes (desde cerca de 1992), eu estava envolvido num projeto de músicas próprias com a banda Pé com Pano, formada por colegas da Atual Editora, na qual eu trabalhava como editor de literatura infantojuvenil. Em sua composição inicial, a banda tinha os seguintes integrantes: Paulo Sá (revisor e preparador de textos) na guitarra; Marcos Puntel (diagramador e editor de arte) no contrabaixo; Rogério de Simone (coordenador de produção gráfica) nos teclados; Thaís Ferraz (editora de arte) na flauta transversal e nos vocais; e eu, nos vocais e na gaita. A formação da banda se completou com a entrada de dois amigos meus do bairro do Ipiranga: Edinho Lopes, na bateria, e Marcelo Tarcitano, na guitarra. Lembro-me que outros companheiros de trabalho chegaram a participar dos primeiros ensaios, mas foram esses nomes citados que permaneceram até a gravação de um CD independente de músicas de autoria dos membros da banda e amigos, lançado em 2000, com uma apresentação ao vivo no hoje extinto Saraiva Music Hall, no shopping Eldorado. A capa do CD (que aparece ao lado das canções no SoundCloud) e algumas ilustrações internas foram feitas pela dupla de ilustradores e caricaturistas Girotto e Fernandes. Pé com Pano era o nome do personagem principal de um antigo programa infantil de TV (“Quartelzinho do Pé com Pano”), criado pelo ator Mario Alimari (1929-1989).

Desse CD, gravado com muita garra e determinação, no Pró-Stúdio, do Cássio Martin, destaco inicialmente as canções “Garoto complexo”, de minha autoria, “0900 (Você decide)”, uma parceria minha com Paulo Sá, e “Fogo cruzado”, canção composta por mim e por meu amigo Mário Sérgio Brisola Damasceno, vulgo Masé, que assina os créditos como Sérgio Brisola. Essas três composições fazem parte do grupo de canções do CD com letras mais descontraídas e bem-humoradas. Assim como o próprio nome da banda é uma homenagem a um personagem conhecido, as três canções também homenageiam outros personagens, fatos e composições famosas, tais como: o célebre Ratinho da Folha de S.Paulo, o antigo programa de TV “Você decide”, a stripper Malu Bailo, o radialista Gil Gomes e a roqueira Rita Lee, com a citação do refrão de “Baila comigo”, canção de autoria da cantora e de Roberto de Carvalho. Confiram!

Espero que vocês possam se divertir!

Abraços,

HF.

A formação da banda Gato na Tuba com Helião na bateria gerou ainda a gravação de covers cujo resultado, em minha opinião, ficou interessante. Reproduzo, a seguir, as gravações de “You can’t do that” (1964), dos Beatles, “Star, star” (1973), dos Rolling Stones, e “Tutti Frutti” (1955), de Little Richard.

Na canção de Lennon e McCartney, criamos um arranjo diferente do original, com uma introdução e um solo de gaita no meio da execução, que deram um clima mais festivo para a música. Durante muito tempo, essa canção foi utilizada para abrirmos nossas apresentações ao vivo. É curioso notar que John Lennon tocava gaita em várias canções do Beatles, mas nós não incluímos nenhuma delas em nosso repertório. Utilizamos esse instrumento apenas em canções em que ele não foi usado nas gravações originais, tais como “I feel fine” (1964), de Lennon e McCartney, e “While my guitar gently weeps” (1968), de George Harrison, propondo arranjos diferentes dos gravados pelos Beatles.

Na canção de Mick Jagger e Keith Richards, respeitamos boa parte do arranjo original, porém com um andamento mais cadenciado. Na finalização da música, incorporamos uma sucessão de acordes em escala, utilizada pelos Stones numa gravação ao vivo, de 1978, no Texas, que confere um peso maior de rock’n’roll à execução. Obviamente, não tentei em nenhum momento imitar a pronúncia ou a interpretação vocal de Mick Jagger, simplesmente porque isso seria impossível, além de eu nunca ter tido o hábito nem a capacidade de realizar esse tipo de procedimento em qualquer canção.

A regravação da canção de autoria de Little Richard e Dorothy LaBostrie vale pela curiosidade da presença de Hugo Sinisgalli no vocal principal e pela inserção de um solo simples de gaita no meio da execução. Note-se também, nessa gravação, a marcante pronúncia macarrônica do inglês falado no bairro do Ipiranga, como já se pôde perceber em outras gravações, nas quais eu faço o vocal.

Esses foram os últimos registros de estúdio realizados com o Helião na bateria. Depois disso, em momento e circunstâncias das quais eu não me lembro, Pastel retornou à banda, consolidando a formação principal e mais estável, que durou um bom tempo: Hugo Sinisgalli (guitarra solo), José Roberto “Betinho” Almeida (guitarra e vocais), Flávio “Tubarão” Félix (contrabaixo), Fernando “Pastel” de Lima (bateria) e eu, Zé Henrique Félix, nos vocais e na gaita.

Mais uma vez, divirtam-se!

Abraços,

HF.

Na postagem anterior, deixei de adicionar uma legenda à foto mais antiga da banda Gato na Tuba. Aí vai: à esquerda, Hugo Sinisgalli (na guitarra); ao centro, eu (nos vocais e na guitarra, uma Giannini modelo Les Paul); ao fundo, Pastel (agitando as baquetas, na bateria); e, à direita, Tubarão (no contrabaixo).

Por um breve tempo, ainda com o nome de “Fãs&Farra”, tivemos um terceiro guitarrista (que não aparece na foto): Mário Sérgio Brisola Damasceno, nosso amigo Masé, que havíamos conhecido em São Vicente, no Edifício Estrela-do-Mar, onde costumávamos passar as férias escolares. Masé tocou conosco, em 1981, numa festa dos alunos do Instituto de Matemática e Estatística da USP, que eu cursei por dois anos. A festa se realizou numa casa enorme da rua Professor Sud Mennucci, na Vila Mariana, cujo estilo de construção lembrava um castelinho. Anos depois, a casa deu lugar a um prédio de apartamentos. A principal lembrança desse evento foi o tombo que Masé levou numa escada, ralando a perna, o que nos levou a zoar com ele e dizer que o desastrado havia feito um rock na canela.

Nesse período, chegamos a tocar pelo menos duas vezes no extinto Zinzim Bar, na esquina das ruas Bom Pastor e Costa Aguiar, no Ipiranga. Numa delas, contamos com a participação de Serge Mor, mais conhecido como França, guitarrista mais velho e mais experiente, com quem íamos tocar num festival de rock, no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, mas do qual tivemos que fugir correndo, depois de descobrir que a maioria das bandas eram de punks, que não tolerariam uma apresentação “bem-comportada”, com canções dos Beatles e de rockabilly.

Durante um breve período, em 1986, a banda passou a se chamar “Zíper” e, com esse nome, tocou numa antiga casa de shows de São Paulo chamada Latitude 3001, que funcionava numa edificação em forma de caravela, na esquina da rua Joinville com a avenida Vinte e Três de Maio, na Vila Mariana. A edificação não existe mais e deu lugar a um grande hotel. Nessa apresentação, a banda já começou a contar com a participação de Betinho Almeida, na guitarra e nos vocais. Por razões que não recordo, Pastel se afastou temporariamente da banda. Quem assumiu seu lugar na bateria foi um rapaz forte chamado Carlão. Tubarão passou o contrabaixo para um carinha apelidado Nil e se arriscou a tocar teclados. Que eu me lembre, foi a única vez que a banda tocou com essa formação.

Carlão e Nil logo deixaram o grupo, Tubarão retomou o contrabaixo, e, durante um determinado período, a bateria passou a ser tocada por um cara chamado Helião (infelizmente, já falecido), que gostava bastante de improvisar e quebrar a levada, criando contratempos muitas vezes surpreendentes. Com essa formação, já batizada de Gato na Tuba, a banda tocou várias vezes num barzinho chamado Mountbawns, que funcionava na rua Fidalga, na Vila Madalena, e também se apresentou para uma grande plateia, num show ao ar livre na cidade de Porto Feliz, durante um evento importante da cidade: a Festa da Uva. A apresentação foi transmitida ao vivo pela rádio local e totalmente gravada.

Com essa formação, a banda Gato na Tuba entrou novamente no estúdio, em 1992, para gravar mais alguns covers, entre os quais, uma versão de “Ponto fraco”, do Barão Vermelho. Ouçam a seguir essa versão e a gravação ao vivo dessa mesma canção, registrada diretamente do palco, durante a apresentação da banda em Porto Feliz.

Na gravação de estúdio, gosto muito do peso do baixo do Tubarão, que deixa a música com uma pegada envolvente. Na gravação ao vivo, destaca-se a bateria do Helião, que inventa e improvisa variações durante a execução. Além, é claro, da abertura do show, realizada pelo apresentador do evento, que fez com que nos sentíssemos verdadeiras estrelas do rock.

Divirtam-se!
Abraços,
HF.

foto_gatonatuba

Notícias e curiosidades musicais e editoriais

Por Henrique Félix

A consolidação de uma banda, em geral, leva tempo. Até que o grupo se estabilize, é comum que sua formação passe por várias mudanças de componentes. Isso não foi diferente com a banda Gato na Tuba. Até mesmo seu nome definitivo não surgiu de imediato.

Nos primórdios da banda, por volta de 1979, eu nem mesmo fazia parte dela. Certo dia, meu irmão e três amigos de escola – e também sócios do Cisplatina F. C., localizado no bairro paulistano do Ipiranga – resolveram montar um grupo, ao qual deram o nome de “10 Mandamentos”. O grupo era formado por meu irmão, Flávio “Tubarão” Félix, que tinha uma guitarra (que, na verdade, era minha), Hugo Sinisgalli, que tinha uma bateria e um violão, Fernando “Pastel” de Lima, que tinha um contrabaixo, e Marco Antônio Monteiro, que não tinha instrumento nenhum.

No primeiro ensaio, na casa do Hugo, Tubarão e Pastel tocaram os instrumentos que haviam levado, enquanto Hugo pegou seu violão e deixou que Marquinho tentasse tocar sua bateria. Obviamente, eu não estava presente e não consigo imaginar o que saiu durante esse ensaio.

Apesar do nome de inspiração religiosa, o grupo não era nem um pouco católico. Já no segundo ensaio, Marquinho descumpriu um dos principais mandamentos da banda (“Sempre ensaiarás”) e não compareceu. Em razão de sua ausência, os três outros membros promoveram um rodízio dos instrumentos: Pastel foi para a bateria do Hugo, Tubarão pegou o contrabaixo do Pastel e Hugo assumiu a guitarra do Tubarão. Em sua curtíssima carreira musical, Marquinho saiu do grupo e, como baterista, revelou-se depois um competente administrador de empresas, desenvolvendo uma carreira de respeito nessa área.

Não sei se foi já nesse ensaio que os componentes perceberam que não havia ninguém nos vocais e decidiram me convidar a fazer parte da banda. O fato é que, algum tempo depois, Hugo comprou sua primeira guitarra e a banda passou a se chamar “Fãs&Farra”. A formação começou a ter a cara que viria a se manter depois: Hugo na guitarra-solo, Tubarão no contrabaixo, Pastel na bateria, e eu na guitarra-base e nos vocais, conforme mostra a foto acima, tirada em 1982, numa festa de aniversário da prima de um amigo do Cisplatina F. C., o Mauro Martorelli. Essa festa foi a precursora de uma série de festas realizadas nesse mesmo clube e batizada como “Festa dos Travados”, que teve, pelo menos, seis edições.

Na próxima postagem, eu conto como o Betinho entrou no grupo. Antes disso, apresento as duas outras canções gravadas na primeira vez que a banda Gato na Tuba foi para o estúdio: “We can work it out”, dos Beatles (1965), e “Crazy little thing called love” (1979), do Queen.

Gosto muito do trabalho de backing vocals do Betinho, na canção dos Beatles, e da finalização instrumental da canção do Queen, diferente da gravação original. Trata-se de uma criação coletiva, inspirada numa sugestão do Hugo, na qual se destaca a evolução da bateria do Pastel, junto com o solo de guitarra inserido na conclusão.


Abraços,
HF.

Notícias e curiosidades musicais e editoriais

Por Henrique Félix

Em 1947, os compositores Braguinha (1907-2006) e Alberto Ribeiro (1902-1907) lançaram a marcha carnavalesca “Tem gato na tuba”, gravada pelo cantor Nuno Roland (1913-1975) e vencedora do Carnaval daquele ano. A gravação original pode ser ouvida abaixo:

A letra da canção conta a divertida história do Serafim, um músico que, ao tocar sua tuba, percebe que há algo de errado com o instrumento, pois, em vez de emitir apenas sons graves, produz vários miados. A explicação é simples: um gato havia se escondido dentro da tuba do Serafim.

A expressão “Tem gato na tuba”, que dá título à marchinha, está relacionada, portanto, a uma situação inesperada, que oculta algo a mais do que aparenta. Talvez tenha sido essa associação de ideias que levou o guitarrista Hugo Sinisgalli a sugerir que a nossa banda de rock de garagem formada no início da década de 1980, em São Paulo, fosse batizada como Gato na Tuba.

Além do criador do nome, integravam originalmente o grupo: Betinho Almeida (guitarra e vocais), Flávio “Tubarão” Félix (contrabaixo), Fernando “Pastel” de Lima (bateria) e eu, nos vocais e na gaita. Muitos anos decorridos, a banda já foi e já voltou, passando por várias formações até a atual, que inclui três componentes originais (Betinho, Pastel e eu), além da participação de Marcos Puntel, na guitarra, e Sérgio Schaff, no contrabaixo.

Gato na Tuba virou até um selo musical informal e independente, que marca algumas produções de estúdio já realizadas pelos músicos ligados à banda e aos amigos mais próximos desta que acabou se tornando uma verdadeira comunidade roqueira do bairro do Ipiranga.

Foi pensando nisso tudo que resolvi criar este blog, associado ao site da Belo Dia Editora, no intuito de, periodicamente, apresentar aos amigos notícias ou curiosidades sobre músicas e livros, revelando, quando possível, algo a mais por trás das obras apresentadas.

Para inaugurar essa iniciativa, apresento duas das quatro primeiras gravações da banda Gato na Tuba, realizadas no Pró-Stúdio, do nosso amigo Cássio Martin, nos anos 1980. São covers de “All my loving” (Lennon-McCartney), dos Beatles (1963), e “The house of the rising sun” (Alan Price), do grupo The Animals (1964), esta com um arranjo diferente do original, ao agregar violão e solos de gaita e guitarra ao instrumental.

Os recursos para gravação de estúdio, no início dos anos 1980, já haviam se desenvolvido muito, mas gravar uma canção ainda não era muito fácil ou acessível para jovens com bastante disposição porém sem muita grana ou conhecimento técnico. Essa primeira incursão no estúdio foi uma aventura divertida e, por que não dizer, valente, viabilizada pela habilidade profissional e o know-how de Cássio Martin, um craque das gravações.

Observem, aliás, no início da canção dos Animals, a chamada “Gravando!”, na voz do próprio Cássio, e eu fazendo a contagem “Um, dois, três, quatro”, para a entrada do violão do Betinho. Particularmente, gosto muito do clima cortante criado pelo solo de guitarra do Hugo, depois do solo de gaita, no meio da música. Já naquela época o rapaz era atrevido e imprimia toda a sua vibração às cordas da guitarra.

Por favor, perdoem o inglês com sotaque macarrônico do Ipiranga nos vocais e divirtam-se.

Na próxima postagem, eu publico as outras duas canções gravadas na mesma sessão.

Abraços,

HF.